Na faculdade de engenharia, a disciplina de Cálculo II era um rito de passagem. Numa prova bimestral, o professor permitiu que a resolvêssemos em duplas. Sentei-me com um amigo, Arthur, a quem eu, por ironia, dava aulas particulares sobre como programar as calculadoras da época — as TI-59 e as Sharp programáveis em BASIC. O nosso domínio sobre as ferramentas era o nosso diferencial.

Juntos, resolvemos a complexa equação diferencial da prova. Entregámos o trabalho, confiantes na precisão dos nossos cálculos.

Dias depois, o resultado. O professor entregou-me a minha folha com um zero circulado a vermelho. A minha nota final do bimestre seria 2, salva apenas pelos pontos de trabalhos entregues em dia. Senti o peso da responsabilidade; eu tinha feito o meu amigo tirar zero.

Ao sentar-me ao lado do Arthur, preparado para me desculpar, ele virou-se para mim, sorridente: “Conseguimos, tirámos 10!”. A minha confusão foi total. Como era possível? A mesma prova, as mesmas respostas, mas notas diametralmente opostas.

Respirei fundo e fui falar com o professor. “Professor, com todo o respeito, preciso que revise a minha nota da prova.”

A reação dele foi imediata e intimidatória. Ele encarou-me e disse: “Você sabe que eu posso até baixar a sua nota final, que agora é 2, não sabe?”.

A ameaça era clara, mas a lógica da engenharia na minha mente era mais forte. Um sistema com duas saídas diferentes para a mesma entrada estava, por definição, quebrado. Insisti, com respeito, para que ele verificasse.

Contrariado, ele pegou na minha prova e na folha de gabarito. Após alguns segundos de silêncio, a sua expressão mudou. “Ah,” disse ele, “eu usei o gabarito da Turma A para corrigir a sua prova. Você está na Turma B.”

Ele riscou o zero e escreveu um 10. A verdade objetiva prevaleceu.

Mas a história não terminou aí. Ele então perguntou sobre os meus trabalhos extra. E, por um motivo que até hoje não compreendo — “sei lá porquê” —, ele começou a reavaliar os pontos que já me tinha dado, baixando a minha nota de trabalhos. A minha média final fechou em 8. Eu, que deveria ter 10 na prova mais 2 de bónus, aceitei os 8 e fui-me embora, confuso, mas com uma lição que nunca esqueci.

A Análise de Engenharia do Erro

Esta história é um estudo de caso perfeito sobre sistemas e a natureza humana.

  • Falha de Processo (O Erro Sistémico): O erro inicial foi uma simples falha de processo: usar o gabarito errado. Demonstra como até as estruturas mais lógicas dependem de uma execução humana correta para funcionarem.
  • O “Bug” Humano (A Reação da Autoridade): A reação inicial do professor — a ameaça em vez da verificação — é um “bug” comum em sistemas de autoridade. É a defesa do ego a sobrepor-se à busca pela verdade.
  • A Arbitrariedade Final: A inexplicável redução da minha nota final, mesmo após a prova estar correta, revela a falha mais profunda: quando os dados (a nota 10) entram em conflito com a narrativa pré-existente do sistema (“este aluno é um 2”), o sistema por vezes prefere “massajar” os dados em vez de admitir a sua própria falha inicial.

A lição que ficou não foi sobre cálculo, mas sobre a coragem de, com respeito, apontar uma falha num sistema, e a sabedoria de aceitar que nem sempre a correção de um erro resulta numa justiça perfeita. Mas, como engenheiros, o nosso dever é sempre lutar pela precisão. A obra depende disso.