Na universidade, num curso de engenharia, enfrentei um desafio que me marcou mais do que qualquer equação complexa. O trabalho era calcular o deslocamento na ponta de uma treliça quando uma das suas barras era aquecida a uma determinada temperatura. Um problema clássico de física e estruturas.

Eu mergulhei no trabalho com o rigor que a engenharia exige. Fiz os cálculos com uma precisão de nove casas decimais. Desenhei a treliça com nanquim sobre papel vegetal, um trabalho artesanal que exigia paciência e firmeza. Toda a parte escrita foi feita à mão, com um normógrafo “aranha”, garantindo que cada letra e número estivesse perfeitamente padronizado. O resultado final, impresso numa cópia azul com amónia, era uma peça de engenharia da qual eu me orgulhava.

Antes de o entregar, procurei um colega, aquele que toda a turma considerava o mais inteligente, o ponto de referência. Conferimos os nossos resultados. O número principal era o mesmo. A diferença estava nos detalhes: a minha precisão era de nove casas decimais; a dele, umas três. Senti-me confiante.

O resultado da avaliação, no entanto, foi um choque: ele tirou 10. Eu tirei 9,5.

Apertei o professor, não por arrogância, mas por uma necessidade de compreender a lógica por trás da avaliação. “Professor, por que tirei menos que ele?”

A resposta foi desanimadora: “Olha, a diferença é só 0,5. E como esta nota vale apenas 1 ponto na média final, isso não representa nada. Fica frio.”

Mas para mim, representava tudo.

“Professor,” respondi eu, “eu estudo engenharia. A obra fica em pé se eu acertar. Com esta nota, o senhor está a dizer-me que há uma margem de 5% para a obra cair, e que isso ’não representa nada’.”

Naquele momento, eu entendi. A nota do meu amigo tinha de ser a mais alta, porque o sistema já o tinha rotulado como “o melhor”. A avaliação não media a precisão do trabalho, mas a reputação do aluno.

A Análise de Engenharia do Erro

Esta história não é sobre uma nota. É sobre a falha de um sistema.

  • O Sistema vs. o Objetivo: O objetivo da avaliação era medir a competência técnica. O sistema, no entanto, estava a medir a conformidade com uma expectativa pré-existente.
  • A Métrica da Vaidade: A “nota” tornou-se o objetivo, em vez de ser um indicador da qualidade. O sistema recompensou o “suficiente”, não a “excelência”.
  • O Risco da Tolerância ao Erro: A atitude de “não representa nada” é o início da cultura que permite que pontes caiam e projetos falhem. Para um engenheiro, 0,5 pode ser a diferença entre a segurança e a catástrofe.

Esta lição moldou a minha carreira e é um dos pilares do engeAI.com. O nosso compromisso aqui não é com a nota, com o aplauso ou com a validação do “sistema”. É com a precisão, com a verdade e com o trabalho bem feito, mesmo que a diferença esteja na nona casa decimal, onde poucos se dão ao trabalho de olhar.